sábado, 22 de outubro de 2022

SÍNTESE DA PALESTRA " A VOZ DISSONANTE: um recurso literário no universo firminiano-Vanda Lúcia da Costa Salles

 




SÍNTESE DA PALESTRA “A VOZ DISSONANTE:  um recurso literário no universo firminiano

                                             Por: Vanda Lúcia da Costa Salles¹

                                                                        “Mas  nenhuma consciência branca com voz ousou dizer que

                                                                         macabro era escravizar os africanos”.

                                                                                                                       In: O Ku-Jelê a Awa!²

        É de fundamental importância para compreendermos o projeto literário de uma mulher professora, escritora e negra na província do Maranhão, Grão-Pará e Rio Negro no século XIX, precisamente no ano de 1859, ano da publicação do primeiro livro abolicionista em Língua Portuguesa: o romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis, e cujas obras nos exigem a repensar a Literatura Brasileira por conta da perspectiva inédita e singular sobre à questão nacional: segredo da verdadeira filiação paterna, e às vezes, materna.

         As leituras empreendidas em suas obras nos autorizam a afirmar que  há crítica histórica e literária de personagens e gêneros com uso parodístico, posto que as leituras d’ A Voz Dissonante- um recurso literário no universo firminiano, pressupõem as seguintes observações:

1-     Narrador com Voz Multisseletiva  ( ou narrador onisciente ou intruso,  ou ainda, espião)-  com uso criativo de uma outra estratégia- a metamorfose.

 

2-     Foco Narrativo Polifônico (modo novo de contraponto, tendência no Renascimento com uso do alaúde, originário da cultura mourisca ou moura).: Eu/Nós, Eles/Elas- Com uso da Tipologia de Voz.

 

3-     Crítica Literária (Gênero e Personagens)- Singularidade: Exílio/migração: imigração e emigração em narrativa de mulher negra na Literatura em Língua Portuguesa, conforme esclarecemos.

I-                     Língua (Corrói o código): Língua Portuguesa (oficial) x Nhenhengatu (  

                                                               Língua proibida à época, mas falada por

                                                                    indígenas, caboclos, mulatos, pardos e negros

                                                               africanos)

·        Multiculturalismo

·        Interdiscursividade

·        Incomunicabilidade

 

II-                Linguagem ( Para desconstrução do mito patriarcal)- uso das técnicas de criação e/ou procriação:   

 

·        Mise in Abyme

·        Lenda Dourada

·        Cantos Paralelos: - Citação (= Convocar)

                              - Versão

                               - Paródia

    * ‘Deux in maquina’ (conceito profundo-representação e revelação de uma realidade: conexão entre memórias): Loucura (solução inesperada como na tragédia de Eurípedes, o filósofo do teatro que trabalha a alma feminina: Medeia, mulher ‘barbára’ na sociedade patriarcal).

    * Tese ou tema recorrente: O pensamento mata o pensador (Utilizado por Honoré de Balzac, escritor francês precursor do Realismo)

 

4-     Tipologia de Voz (Contêm cinco tipos):

 

       4.1- Voz de Cabeça ( Suave e leve, intuitiva, com energia focada para o Corpo):

              a)    “ Uma tarde de agosto nas nossas terras do norte, (...) na voz reconhecida da nossa alma”. 

          b) “ E ela começou:

               _ Era uma tarde de agosto, bela como um ideal; poética como um suspiro de

            virgem,  melancólica, e, suave como sons longínquos de um alaúde misterioso”.

 

          c) “Minha mãe era africana, meu pai de raça índia, mas eu de cor fusca. Era livre,

              minha mãe era escrava”.

 

        4.2- Voz de Pensamento ( voz do Ego. É produto das emoções, dos pensamentos):

        “que  loucura meu amigo – que loucura a tua apaixonar-te por uma indígena do

        Brasil;  por uma mulher selvagem, por uma mulher sem nascimento, sem

        prestígio”

       (MFR: Gupeva, 2018)

 

        4.3- Voz de Consciência ( É expressão):

          “ Chamava-se frei Luís de Santa Úrsula (...) O irmão gemia a derradeira dor, era o

           noviço frei Luís de Santa Úrsula, a quem chamavam o louco”.

           (MFR:2019:173/177)

 

        4.4- Voz Interior ( É o nosso norte. É o lugar da Verdade Poética):

 

         “Era  uma dessas tardes que só Bernadin de Saint-Pierre soube pintar no delicioso

          Paulo e Virgínia que deleita a alma, e transporta a essas regiões aéreas, que só a

          imaginação compreende, ...”

        (MFR:2019:

 

       4.5- Voz de Peito ( Grave e mais próxima da voz ‘real’. Representa o amor  incon-

         dicional, a sabedoria vivenciada):

            “ Mas ele ia já muito avançado para ouvir-lhe a voz saída do coração”.

 

5-      OBRAS TRABALHADAS:     

ÚRSULA (1859)                             GUPEVA³ (1861)                     A ESCRAVA (1878)

Gênero: Romance (Tem origem em          Gênero: Romance                               Gênero: Conto  (Épica)

narrativas épicas), surge no                        Brasiliense (Épica)

Romantismo                                       

·         Épico e  Épica é que são pai e  mãe de todos os escritos humanizados.

 

³-Personagem do livro “Caramuru” (1781), de frei José de Santa Rita Durão(1722-1784).

 

 



CURRÍCULO DE VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES





     Nasceu em Italva ( antigo distrito de Campos de Goitacazes-RJ), Brasil, em 25 de abril de 1956. É escritora, poeta, ensaísta, artista plástica, compositora, arteterapeutica, tradutora e conferencista. Graduada em Letras/Português-literaturas, pela UERJ/FFP; Pós-Graduada em Literatura Infanto-Juvenil pela UFF; e em Arteterapia na Saúde e na Educação pela UCAM.  Atualmente, professora aposentada. 

 

 

      LIVROS PUBLICADOS:

 

 

·          2022: Soninho e a Paleta Criativa (LIJ-LiterÁfrica, 2022), Textos de Vanda Salles (RJ) e ilustrações em aquarela de João Bernardi (SP), com lançamento em São Paulo programado para dezembro de 2022;

 

·         2021: Pirilipi e a caixinha surpresa da vovó (LIJ, do autor, 2021), Textos de Vanda Lucia da Costa Salles e ilustrações de Paloma Dalbon (SP);

 

·         2021: Annecapri- a espiã do agreste brasileiro (Romance, ZMF Editora, 2021)- obra inscrita no Prêmio Oceanos-2021, Prêmio São Paulo Literatura-2021, Prêmio Candango de Literatura de Brasília-2021 e Prêmio Jabuti-2021;

 

·         2021: No Tempo Distraído- com nova revisão (Romance, Machado Editora,2021);

 

·         2020: O Ku-Jelê a Awa! (Novela, ZMF Editora, 2020); com lançamento online pela editora;

 

·         2020: A Face Oculta da Beleza. Le Vau (Romance, ZMF Editora, 2020)

 

·         2019: Como Maçã no Sofá da Sala (Poesias, Autografia, 2019); com lançamento na Bienal do Rio de Janeiro em 2019;

 

·         2019: Diversidades e Loucuras em obras de arte: um estudo em arteterapia I e II- Vanda Lúcia da Costa Salles. (Ensaios de Arte, Autografia, 2019)- com lançamento na Feira Literária de Paraty-2019;

 

·         2019: Maria Cebola (LIJ, do autor, 2019)- ilustrações Vanda Salles- distribuída aos alunos do CIEP 121- São Gonçalo (RJ)- aula online.

 

·         2018: Poética da Vida Solidária (Crônica do Absurdo Político)- A.E.A.C.-Galeria D’Arte Vanda Salles-Museu Pós-Moderno de Educação, Mulher do Século XXI, 2018);

 

·         2018: Poesias Afro-brasileiras (A.E.A.C, Museu Pós-Moderno de Educação, MS21,2018);

 

·         2017: Poemas Úmidos de Amor (A.E.A.C. e Museus Pós-Moderno de Educação, Mulher do Século XXI 2017);

 

·         2017: De Como Mariná de Moraes Sarmento se tornou Mariná do Brasil- E nos Ensinou Onde a Vida Goza!

 

·         2017: Antologia InfantoJuvenil-2017 da A.E.A.C.- Somos todos UERJ!- Apresentada no I Encontro Estudantil de Arte Contemporânea

 

·         2017: Poesias Afroamericanas-Quem Daniel Montoly (A.E.A.C. e Museu Pós-Moderno de Educação, Galeria D’Arte Vanda Salles, 2017);

 

·         2013: Cantigas Para a Mulher do Século XXI-30 anos de poesia (poesias, CBJE, 2013)-com lançamento e apresentação no XI AIDE de Brasília;

 

·         2011: Universo Secreto (Entre o Abismo e a Montanha)- (Contos, Virtualbooks , 2011);  

 

·         2010: Núncia Poética (poesias, CBJE, 2010);   

 

·         2008:   O Chamado das Musas. Pô-Ética Humana: o enigma do recheio- a arteterapia ao sabor da educação brasileira (pesquisa poética em arte e educação,    Creadores  Argentinos-Buenos Aires-Argentina, 2008;  

 

·         2005:  A palavra do menino e as abobrinhas (infanto-juvenil, HP. Editora,2005);

 

·         2002: Diversidades e Loucuras em Obras de Arte- um estudo em Arteterapia   (ensaio,  Ágora da Ilha, 2001);

 

·         2001:    No Tempo Distraído (narrativas, Ágora da Ilha,2001),  

 

·         1998: Asas sobre o universo-Entrevistas, poemas e contos (Projeto educacional com alunos do CIEP 257- e CES-RO (Intercâmbio com estudantes e escritores/poetas/artistas plásticos, do autor, 1998)

 

 

·         1991/92: Nebe - a emoção do mundo (LIJ-Projeto Educacional com alunos do CIEP 121 no Concurso J. Carlos da Secretária de Educação do Estado do Rio de Janeiro-1991/1992- recebeu Menção Honrosa na V Bienal VInternacional de 1992);

 

·         1984: Catacrese (Contos, do autor, mimeografo, 1984)

 

 

 

 

 

 

 

MENÇÃO HONROSA, MONÇÃO DE APLAUSO E CONGRATULAÇÃO, MEDALHAS, TROFÉUS, DIPLOMAS, CERTIFICADOS, ENTRE OUTROS:

 

 

 

·         2021: TROFÉU de L’Amministrazione Comunale di Valsinni – ringrazia Vanda Sales per aver partecipato al Concorso Letterario Isabella Morra “Florilegio 2} Antologia Poetica 2020” e si complementa per essersi classificata al 3º posto com la poesia “Poema a Isabella”-Valsinni, 11 Dicembre 2021-Il Sindaco Gaetano Celano;

 

·         2020: Certificado de participação no “Florilégio Itália-Amiga”;

 

·         2019: Medalha Austreségilo de Athayde-De Associado ADABL, fundação 25/08/1963-Co-fundador Patrono, Presidente atual: Zélia Maria Fernandes;

 

·         2019: Medalha do II Encontro Internacional da Sociedade de Cultura Latina do Brasil-Carrazedo de Montenegro-Portugal;

 

·         2019: Medalhão da Freguesia de Carrazedo de Montenegro e Curros-Portugal, por Palestra sobre Judith Teixeira, e participação no III Encontro Internacional da SCLB;

 

·         2018: Comenda Aldemar Tavares Doctor Honoris Causa da ALC-ES;

 

·         2018: Comenda Maracajaquaçu-Gato Bravo Grande-chefe dos terminós da Ilha de Paranapuã da AL

 

·         2017: Menção Honrosa da Câmara Municipal de São Gonçalo (RJ), por ativismo cultural e promover o I Encontro Internacional da A.E.A.C.-2017;

 

·         2017: Menção Honrosa da Câmara Municipal do Rio de Janeiro

 

·         2017: Menção Honrosa da Câmara Estadual do Rio de Janeiro

 

·         2015: Medalha-broche de Melhores Poetas 2015- Mágico de OZ;

 

·         2014: Medalha de Membro Fundador da Academia de Música, Letras de Salvador -BA (2014);

 

·         2014: Medalha Prêmio Luso Brasileiro- Melhores Poetas de 2014 - Mágico de Oz, valor artístico literário na categoria Poesia, celebrando a contribuição para a Cultura Luso-brasileira, durante o ano de 2013

 

·         2014: Delegada Cultural do “Liceo Poetico de Benidorm (Espanha), no Rio de Janeiro-Brasil  (2014).

 

·         2013: Diploma e Comenda Gonçalves Dias- IHGMA/UFMA (2013), participação no Projeto Mil Poemas Para Gonçalves Dias;

 

·         2013: Diploma e título de Tupy de Cultura da Academia de Caxias-MA(2013);

 

 

·         2013: Membro correspondente  da Academia de Letras de Goiás Velho (2013);

·         2010: Troféu Mulher do Século XXI-Mariná de Moraes Sarmento- Fundadora e Diretora do ENLACE MPME MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO (2010),

 

·         2010 - Medalha do Museu Pós-Moderno de Educação;

 

·         2010: Medalha da A.E.A.C.- Academia Estudantil de Arte Contemporânea;

 

·         2009: Diploma de Ponencia no Encuentro de Escritores en Argentina por Alas-Rotas-2019;

 

·         2009: Diploma de Ponencia no III Encuentro    Nacional de Narradores y Poetas - Unidos por las Letras!-   2009-Bialet Massé (Córdoba, Argentina, 2009);

 

·         2008: Catedrática de Literatura do Museu Belgrano (Argentina), outorgada pelo Fundador e Diretor Dr. Ricardo Vitiritti( 2008);

 

·         2008: Diretora Internacional do Taller Artístico Alas Rotas-Alitas de América, nomeada pela Fundadora e Diretora Geral do T.A.A.R., em Argentina Srª Silvia Aida Catalán( 2008);

 

·          2001: Moção de Aplauso e Congratulações- Câmara Municipal de Rio das Ostras (2001), em Literatura pela publicação e  lançamento do livro “No Tempo Distraído”;

 

·         1991/92: Menção Honrosa (Sec. De Estado e Educação do Rio de Janeiro-V Bienal Internacional do Rio de Janeiro-1991);

 

·         1984/85: Menção Honrosa (Shogum Editora, 1984/5) por participação na Antologia “Os Melhores Poetas  Brasileiros Hoje/1985.

 

 

   ANTOLOGIAS ( Entre Outras) QUE PARTICIPA:

 

 

·         2021: -Antologia Poética Itália-Amiga-2021;

 

·         2021: Antologia da ALAMP-2021;

 

·         2021: Poesia por La Paz em Palestina, 2021;

 

 

·         2020: Florilégio -Antologia Poética 2020- com o poema Izabela Morra... Coordenado por Edoardo Pacelli;

 

·         2019: Antologia da ADABL-2019;

 

·         2017: I Antologia Infantojuvenil da A.E.A.C.-2017 (org.)- (CBJE, 2017);

 

·         2014:  Antologia Luis de Camões e Convidados,  Mágico de Oz, Portugal, fevereiro de 2014;

 

·         2014:  Antologia do Forte de Copacabana, fevereiro de 2014;

 

·         2014:  Cien Poemas Para Nicanor Parra, Coordenador Alfred Asís,Chile, 2014;

 

·         2014:  Mujeres Memorables-Copiladora: Alejandra Burzac, Editora Transcendernoa: Argentina, 2014 - ISBN: 978—987—27356—6—1;

 

·         2014: Encontro Internacional de Escritoras-Provocações, Testemunhos e Evolução da Literatura-Meireluce Fernandes e Nazareth Tunholi (Organizadoras). Brasília, FUNAG,2014;

 

 

·         2013:  Mil Poemas Para Óscar Alfaro- Coordenador Alfred Asís, Tarija-Bolívia, novembro de  2013;  

 

·         2013: Antologia Confraria dos Poetas LUA ÚNICA- Cascavel-Paraná- Brasil, novembro de 2013;

 

·         Time to say: NO!- Philo Ikonya e Helmuth A. Niederle- P.E.N Club-Áustria, 2013

 

·         2013: Mil Poemas Para Gonçalves Dias, Coordenação:   Dilercy Aragão Adler e Leopoldo Gil Vaz.   IHGMA/UFAM: São Luís-Maranhão, 2013;  

 

·         2010: Poesia em Trânsito-Brasil/Argentina (La Luna Que, Buenos Aires, 2009;

 

·         2010: 1º Antología Literaria Nacional e Internacional 2010 " Ser Voz en el Silencio,  S.A.L.A.C -   Carlos Paz, Córdoba-Argentina (Galia's, Editora   Independiente), 2010.

 

 

·         2009:  III Encuentro    Nacional de Narradores y Poetas - Unidos por las Letras!-   2009-Bialet Massé (Córdoba, Argentina, 2009);

 

·         1985:       Os Melhores Poetas Brasileiros Hoje/1985 (Shogum Editora, 1985).

 

 

 

LIVROS TRADUZIDOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA:

*AQUITIN- Vol.1, de Yolanda MA. Jorge Besteiro, Revista Educativa de Meio Ambiente da água e da natureza para crianças e jovens. Ilustrador: Adolfo López Mejía, tradução: Vanda Lúcia da C. Salles

 

*AQUITIN-Vol.2, de Yolanda Besteiro , Revista Educativa de Meio Ambiente da água e da natureza para crianças e jovens. Ilustrador: Adolfo López Mejía, tradução: Vanda Lúcia da C. Salles

 

 

*AQUITIN-Vol.3, de Yolanda MA.  Jorge  Besteiro, Revista Educativa de Meio Ambiente da água e da natureza para crianças e jovens. Ilustrador: Adolfo López Mejía, tradução: Vanda Lúcia da C. Salles

 

*AQUITIN-Vol.4, de Yolanda MA. Jorge Besteiro, Revista Educativa de Meio Ambiente da água e da natureza para crianças e jovens. Ilustrador: Adolfo López Mejía, tradução: Vanda Lúcia da C. Salles

 

 

 


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

MICROCONTO: MIGRANTE

 



                                     



                                                        MIGRANTE




             Comia rapadura com farinha escondida no bolso da blusa puída. Migrava em prol dos seus, sorrindo como um candango em plenitude.

             À tarde caia  no dorso do dia que findava lento. Imaginou  "Os Comedores de Batatas", daquele sensível pintor de estrelas...





Comedores de Batatas, de Vincent van Gogh 

sexta-feira, 29 de abril de 2022





A  ROMANCISTA E FUNDADORA DO MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO VANDA SALLES CONCORRENDO AO PRÊMIO SÃO PAULO 
DE LITERATURA 2022





ANNECAPRI-a espiã do agreste brasileiro



"a ficção é a arte da imaginação douta..."

Vanda Salles

 

domingo, 28 de junho de 2020

REGIANE TAVARES- DESVELO DE UM MUNDO ESPECIAL









Abraços,
Dilercy Adler
DESVELO DE UM MUNDO ESPECIAL
AUTORA: REGIANE TAVARES
À GUISA DE APRESENTAÇÃO
“Eu tenho vários dons, de fazer mensagens bonitas,
e fazer alguns trabalhos que não ficam muito bonitos,
mas eu faço”.
Regiane Tavares
Sinto-me honrada em tecer algumas considerações acerca deste livro para que o leitor, a partir de um conhecimento maior, acerca de algumas condições específicas da nossa sociedade, da nossa humanidade e da nossa autora, possa degustar com mais intensidade as palavras deste livro que são urdidas nem sempre com fios verticais, mas que consegue de forma contundente fazer a trama, o enredo, de todo uma vida, por fim desvelada, de forma leve e perspicaz, que talvez escape do leitor desavisado. Por isso a premente necessidade de iniciar esta apresentação pela gênese da história deste livro.
Estava eu em Guimarães, mais uma vez, depois de ter sido levada pelas mãos imortais de Gonçalves Dias, e adentrando na cidade pela generosidade inicial do atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Guimarães, IHGG, o ilustre professor Osvaldo Gomes e posteriormente pela prefeita Nilce Farias e todo o povo vimarense (que, diga-se de passagem, é um povo hospitaleiro e de grande amabilidade).
Na ocasião estávamos comemorando o aniversário de 189 anos de Maria Firmina, lançando o Projeto dos “Cento e noventa poemas para Maria Firmina” que inclui duas publicações: uma de poemas e outra de estudos e pesquisas, em homenagem à essa grande escritora ludovicense, que passou a maior parte da sua vida em Guimarães.
A programação foi realizada em São Luis e Guimarães e como parte da programação de Guimarães estava a criação da Academia Vimarense de Letras – AVL. Muita gente reunida: autoridades, estudantes, professores e comunitários. Muitas falas, sorrisos, alegria! Era uma manhã de domingo ensolarada, como a maioria das manhãs do Maranhão.
Entre o público, uma jovem mulher de aspecto frágil, mas ao mesmo tempo, revelando força, coragem, ousadia. Falava dos seus trabalhos de literatura, assinou o Livro de Ata dos membros fundadores da AVL.
Regiane Tavares chamou a atenção de Vanda Salles, membro correspondente da Academia Ludovicense de Letras-ALL, que lá estava juntamente com o acadêmico José Neres, para proferirem palestras sobre Maria Firmina. E as duas conversaram muito e eu fiquei admirando a beleza do encontro entre pessoas que se acolhem de forma incondicional como deveriam ser todos os encontros entre as pessoas... Todas pessoas!
Conversamos um pouco sobre os trabalhos da Regiane e tanto a Vanda como eu intercedemos para que o seu trabalho fosse publicado.
E este livro significa isso!!!
Essa grande vitória de Regiane Tavares, que a despeito de todas as barreiras consegue hoje realizar o seu sonho, faz parte do meu também, no sentido de que defendo a possibilidade de partilhar com o nosso coletivo os nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossos desejos para que conheçamos mais profundamente a alma humana: a minha e a do outro.
Regiane Tavares reforça neste livro de prosa e poesia a ideia de que “Nada acontece por acaso”. Assim entendo que aquela manhã de domingo estava entre os fatos que tinham que acontecer embalados pelo encantamento de Gonçalves Dias e Maria Firmina.
O viés mais forte desta obra é o sentimento. As ideias não são trabalhadas em termos de erudição ou sofisticação literária, mas de uma forma simples, coloquial. E uma a uma vão traduzindo de forma contundente as marcas da dor da rejeição materna; a beleza da união possível entre um homem e uma mulher na contramão da agressão ainda sofrida por muitas mulheres, por seus companheiros; na questão do poder das autoridades e dos deveres e direitos, embora às vezes contraditórios; na necessidade de igualdade real e concreta entre as pessoas, onde o preconceito e o desejo de dominar o outro ficam sem vez de expressão.
Outra característica desta obra que me provoca inusitada comoção é a clara e vigorosa Ousadia e
incontestável Fé. Fé no sentido da certeza, da convicção da realização do fato ou da existência daquilo que não se vê. Foram a Fé, a coragem, a ousadia, sem dúvida, que moveram Davi na defesa do seu povo contra o gigante dos Filisteus. Também depreendo essas qualidades neste trabalho da Regiane. Ela mesma se coloca como uma mulher guerreira que luta pelos seus direitos e o seu grito é ouvido e isso é bom! “[...] o verbo nos muda/ o verbo deixa-nos mudos! (ADLER, 2000). Neste caso o verbo é gritado para ser ouvido e empreender mudanças... Este livro é uma prova disso.
Convém enfatizar que para a produção literária é imprescindível sensibilidade, inspiração e exercício na ação de tecer os fios invisíveis e imprevisíveis das palavras impregnadas de sonhos, desejos, delírios, loucuras, dor, amor e amor, muito amor no fim de tudo... Sempre amor!
Traduzir o mundo de forma crua ou romântica com suavidade ou pesada obsessão transformadas em leveza suprema e insustentável do ser-no-mundo... Isso configura o desafio do poeta.
O poeta não nasce pronto. Nasce com o potencial para sê-lo e o coletivo tem fundamental importância nessa tarefa, considerando que é o coletivo que aprova, aplaude ou refuta tudo que lhe é apresentado.
Quero estar no público que reforça positivamente, não por irresponsabilidade ou benevolência, mas por reconhecer o diamante que está em minhas mãos e quero juntar as minhas mãos às de Regiane para, quem sabe, me inspirando em César Maranhão, juntas cavarmos uma cacimba para aplacarmos na urgência da sede de alguns, essa necessidade... Necessidade de beber amor, beber vida, beber dor, sorver denúncia, ruminar a revolução necessária para um mundo mais humanizado de fato!!!
Regiane Tavares coloca num dado momento de suas reflexões que:
“A minha presença pode causar-lhe alegria ou tristeza.
Você fica feliz quando eu chego ou quando saio?”
Para finalizar deixo a pergunta: Esta leitura causou-lhe prazer? Aguçou a sua sensibilidade? Redirecionou o seu olhar para situações e objetos até então ignorados? Conseguiu identificar os vários tons da mesma cor? Foi capaz de se embevecer com várias notas musicais em diferentes combinações de novas sinfonias?
A sua resposta só você tem. A minha deixo aqui registrada: Essa leitura a mim só fez bem!!!
Dilercy Adler
São Luiz/MA, 11 de janeiro de 2015.

DO CANTO ABSOLUTO DO INUSITADO AMOR- EM OBRAS DE REGIANE TAVARES: uma escritora e poeta vimarense
Eu venço as lutas da vida com dignidade, por
isso é que eu posso dizer que sou uma guerreira.
[...] Eu peço as pessoas mais fortes que deem apoio
a este órgão e também as pessoas especiais.
Porque elas precisam desse apoio.
Regiane Tavares
Esgarço a minha sensibilidade e o abraço amigo de irmã de alma, agora mais ainda convicta de ler e ouvir nas linhas e entrelinhas deste contracanto de Regiane Tavares – a especial escritora e poeta vimarense, conforme suas próprias palavras a mim quando em Guimarães, ao término de minha apresentação sobre O Primado da Imaginação: um estudo Arteterapêutico em Maria Firmina dos Reis, em que sugeria ser o diálogo possível em uma missão de amor. Missão esta, que o projeto firminiano desvelou-nos e elevou-nos ao entrelaçar-se corpo e alma na singular palavra: “ESPERANÇAR”, que Dilercyr Adler ensinou-nos a conjugar.
Eis aqui uma missão de amor!
Falar do universo regianiano é marcar uma diferença. É causar. É colocar em visibilidade a sua Alteridade radical, no público e no privado, onde de maneira perspicaz mostra como a Liberdade pode ser Senhora em sua vida e na vida de todos nós.
Sua poética tange e contagia-nos a delirar e indagar sobre “normalidade”, “memória e consciência”: como ter uma nova visão? Ver é saber o que fazer? A consciência produz a mente no cérebro para se explicar e revelar-se? Ensina-nos ela em “A Vida de Uma Especial que Muita Coisa Passou”: Morei com a minha vó até os oito anos. Depois fui morar com minha mãe. Aos nove fui morar em Brasília com ela para fazer um tratamento mais desenvolvido para saber qual era esse problema. oi constatado que eu tinha uma lesão no cérebro, e que não tem cura.
A neuroestética nos informa, segundo Ramachandran (2008), “ a percepção do belo obedece a leis universais que se relacionam com aspectos neurobiológicos do processamento de informações comuns a todos os homens’.
Vanda Lúcia da Costa Salles
Alcântara/SG/Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2015