Foto: Rhaí jogando sinuca (Brasil)
QUE MARAVILHA, O MUNDO NÃO ACABOU!
Vanda Lúcia da Costa Salles
-Disseram que o mundo ia acabar. Como?! E eu que nem aprendi a jogar sinuca.Como pode acabar assim, sem mais nem menos. Sem que eu leia Augusto dos Anjos, Sem que a aposentadoria saia. Sem que eu possa visitar Paris? Impossível. - ela reclamava e dizia que queria aprender a jogar sinuca.
Vinte e quatro horas passadas, cansados, ela e os amigos constataram que tudo permanecia igual, daí ela exclamou, gargalhando para o mundo, com o taco na mão:
- Que maravilha, o mundo não acabou!
domingo, 23 de dezembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
POESIA: TERNURA ANTIGA EM A PALAVRA DO MENINO E AS ABOBRINHAS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES
Foto: Capa do livro Infanto-Juvenil: A Palavra do Menino e as Abobrinhas, de Vanda Salles, também conhecida como Vanda Lúcia da Costa Salles
Contra capa : A escritora e poeta autografando o livro em Rio das Ostras ( RJ)
Ilustração: Raíssa Salles,Cibério Ramon Salles e Vanda Salles
TERNURA ANTIGA EM A PALAVRA DO MENINO E AS ABOBRINHAS
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
Era um menino de uma perna só
que cantava o mundo
para além do nó
Assim ele ficava porque
enquanto cantavam afinadinhos
Ele desafinava
A sua ternura antiga o engendrava
E era um menino lindo
que se permitia desafinar
Em seu propósito dizia:
É possível inventar um sonho?
Afeto tem sexo?
Qual é o raio da nossa intolerância?
Amor é cor?
O seu amor sabe do meu amor, então,
podemos florir o mundo...
sábado, 20 de outubro de 2012
CRÔNICA: DENTRO DE NÓS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES
Foto: Maria Amaral Ferreira, por Vanda Salles ( Vanda Lúcia da Costa Salles)
DENTRO DE NÓS
Vanda Lúcia da Costa Salles
Em momentos que a mente acaricia, sei que vives, com esse ar de Dama antiga e dissimulada porque sabes que a saudade brota gerânios, tulipas e hortelãs. Como grapete, nomeada era e os netos vinham saber dos causos e namoricos de adolescentes. E ficávamos sorrisos largos, a retirar os cabinhos das pimentas malaguetas ou a formar, peça a peça, a beleza de um fuxico.
De certo que a dúvida nunca adentrava o afã do peito amante, dançando um samba ou um cateretê. Então, dizias, em tardes de veranico, " a maresia entorna o caldo do pirão de carapeba, moreno, prepara a lenha que o fogo já nos convida". E toda faceira, alisava os lençóis.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis filhos seus e mais três de quebra no angu do tacho, criados com tapioca, violão e rede. " Neném que o diga, Josias nada sabe do clarão da Lua quando a noite brilhava encanto. Vanda, tão bom seria se tivéssemos um tapete voador, não?" Imaginar nem era preciso, sabíamos que do sonho era a vantagem do guia. Seguíamos pegadas.
Pintora fosse, falou um dia, chuva caindo fininha como agulha perdida na cegueira do olhar, " eu pintava a flor, delicada flor, e enfeitava a casa de Seu João Aleijadinho. O pobre, mal consegue respirar, mas também uma solidão tão torta, que nem cal as paredes aceitam. Coitado, diz caminhar nas horas." Ouvido atento, dentro de nós, a admiração se expandia como pé de samambaia ou cortadeira chorona. Ah! Senhora de toda a nossa vida e matriz de mim, como sufocar a ausência que deixaste nessa casa com portão verde floresta e uma biblioteca comunitária num desejo todo próprio do projeto firmar?
Num cavalinho branco que penso ser o unicórnio azul de teus sonhos de menina ( o qual, contastes oras a fio, enovelando as nossas cabeças fantasiadas de colombinas, em uma noite de Carnaval passado em Balneário de São Pedro D'Aldeia), partistes, como quem parte desejando boa-noite e no dia seguinte viesse convidativa para um banho de mar, nas Dunas ou no Farol.
Às vezes, ao ler sobre o Egito Antigo ou O Alienista, de Machado de Assis, creio vê-la ao meu lado, tão dentro de nós, em sorriso de coqueteria, " ainda serás, uma grande, mais grande professora e eu, apenas a mãe"
Chamava-se Maria Amaral Ferreira, neta do Capitão Costa, filha de Olívia da Costa Amaral, e amava poesia.
DENTRO DE NÓS
Vanda Lúcia da Costa Salles
Em momentos que a mente acaricia, sei que vives, com esse ar de Dama antiga e dissimulada porque sabes que a saudade brota gerânios, tulipas e hortelãs. Como grapete, nomeada era e os netos vinham saber dos causos e namoricos de adolescentes. E ficávamos sorrisos largos, a retirar os cabinhos das pimentas malaguetas ou a formar, peça a peça, a beleza de um fuxico.
De certo que a dúvida nunca adentrava o afã do peito amante, dançando um samba ou um cateretê. Então, dizias, em tardes de veranico, " a maresia entorna o caldo do pirão de carapeba, moreno, prepara a lenha que o fogo já nos convida". E toda faceira, alisava os lençóis.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis filhos seus e mais três de quebra no angu do tacho, criados com tapioca, violão e rede. " Neném que o diga, Josias nada sabe do clarão da Lua quando a noite brilhava encanto. Vanda, tão bom seria se tivéssemos um tapete voador, não?" Imaginar nem era preciso, sabíamos que do sonho era a vantagem do guia. Seguíamos pegadas.
Pintora fosse, falou um dia, chuva caindo fininha como agulha perdida na cegueira do olhar, " eu pintava a flor, delicada flor, e enfeitava a casa de Seu João Aleijadinho. O pobre, mal consegue respirar, mas também uma solidão tão torta, que nem cal as paredes aceitam. Coitado, diz caminhar nas horas." Ouvido atento, dentro de nós, a admiração se expandia como pé de samambaia ou cortadeira chorona. Ah! Senhora de toda a nossa vida e matriz de mim, como sufocar a ausência que deixaste nessa casa com portão verde floresta e uma biblioteca comunitária num desejo todo próprio do projeto firmar?
Num cavalinho branco que penso ser o unicórnio azul de teus sonhos de menina ( o qual, contastes oras a fio, enovelando as nossas cabeças fantasiadas de colombinas, em uma noite de Carnaval passado em Balneário de São Pedro D'Aldeia), partistes, como quem parte desejando boa-noite e no dia seguinte viesse convidativa para um banho de mar, nas Dunas ou no Farol.
Às vezes, ao ler sobre o Egito Antigo ou O Alienista, de Machado de Assis, creio vê-la ao meu lado, tão dentro de nós, em sorriso de coqueteria, " ainda serás, uma grande, mais grande professora e eu, apenas a mãe"
Chamava-se Maria Amaral Ferreira, neta do Capitão Costa, filha de Olívia da Costa Amaral, e amava poesia.
sábado, 6 de outubro de 2012
POESIA: NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES
Foto: Barco na Marina da Glória
NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS
Vanda Lúcia da Costa Salles
I
Se o cérebro produz formas, guarda
a natureza dessa imaginação, fugaz
diferenciação
a maré não joga o caniço nem elabora a memória
que traz
o mistério estético do elevar-se âncora
II
Os passos não atravessam estradas porque a sombra os alinham
O sol não aquece as margens porque o rio é caudaloso
A solução não espera o sonho da escolha realizada
A cristalina água reflete a hora de retornar à casa aberta...
III
Nenhum transeunte pensa, o quanto é tarde ao se vê atravessado
A violência tomou conta da tarde, e o trágico na rua
foi um passista silenciar-se
IV
Assoviando no caos do trânsito
uma ambulância corre contra o tempo
Marcas interferem no colorido da imagem
No silêncio das falas, o burburinho das máquinas creditam o humano
V
Uma sunga e uma tanga atravessam a mesma estrada
Há que se crê no que o olho absorve...
NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS
Vanda Lúcia da Costa Salles
I
Se o cérebro produz formas, guarda
a natureza dessa imaginação, fugaz
diferenciação
a maré não joga o caniço nem elabora a memória
que traz
o mistério estético do elevar-se âncora
II
Os passos não atravessam estradas porque a sombra os alinham
O sol não aquece as margens porque o rio é caudaloso
A solução não espera o sonho da escolha realizada
A cristalina água reflete a hora de retornar à casa aberta...
III
Nenhum transeunte pensa, o quanto é tarde ao se vê atravessado
A violência tomou conta da tarde, e o trágico na rua
foi um passista silenciar-se
IV
Assoviando no caos do trânsito
uma ambulância corre contra o tempo
Marcas interferem no colorido da imagem
No silêncio das falas, o burburinho das máquinas creditam o humano
V
Uma sunga e uma tanga atravessam a mesma estrada
Há que se crê no que o olho absorve...
domingo, 30 de setembro de 2012
CRÔNICA: AQUELE OLHAR - ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)
Foto: Iguaba, por Vanda Lúcia da Costa Salles
AQUELE OLHAR
ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)*
Engraçado como a vida faz nossos valores se
distorcerem. Num momento acreditamos em algumas coisas que ela mesma ensinou.
No outro, tudo vira de cabeça para baixo e a gente se pega questionando tudo; a
conduta de pessoas, a nossa, a própria vida e até mesmo Deus.
Eu sei que é clichê, mas nunca estamos
satisfeitos com nada até a vida nos colocar à prova e é aí que uma parte de
nós, absconsa e real, como um bebê esperando para vir ao mundo, se revela. Quem
tem o mínimo de coerência, nessas horas, percebe que na maior parte da
existência reclama por razões mesquinhas ou por não ter o quê dizer.
Em algum lugar da minha memória, um fato que
tive o desprazer de presenciar exemplifica bem o que eu quero dizer. Foi no
início da tarde de um sábado. Eu ia para o trabalho muito P da vida. Calor pra
cacete. Minha escala estava errada e o meu chefe não estava nem aí pra isso.
Que inveja do pessoal fora do ônibus! Sentados num bar, tomando cerveja e
batendo papo enquanto o otário aqui, pagava seus pecados numa condução lotada e
pra jogar logo a pá de cal, no meio de um engarrafamento que faria às provações
de Jó parecerem histórias pra boi dormir.
Fazer o quê, né? Fui resmungando o tempo todo
durante um trecho que, hoje penso, não cobria o espaço de meio quilômetro. Mas
que se dane! Naquele momento eu só pensava em reclamar e sentir inveja
daquele povo lá fora, porque eu estava dentro de um veículo que parecia me
levar direto para o inferno.
Estranho. Até hoje não sei como os meus
reflexos afastaram o pragmatismo mesquinho em meus pensamentos e fixaram minha
visão no corpo de um homem jogado ao chão, bem ali, na calçada.
- Ele caiu! - gritou alguém.
- Foi atropelado! - responde outra pessoa
- Ele tá é bêbado. - gritou, em deboche, um
grupo de adolescentes no fundo do ônibus.
Os comentários ao meu redor me deixavam
atordoado e o impulso foi o de me levantar, porém eu permaneci observando.
Queria ver o rosto do sujeito, que permanecia virado para baixo.
Quando ele conseguiu virar-se afinal, o que eu
vi, ficou gravado em minha mente. O que vi foi ódio. Eu vi impotência. Sua
respiração era profunda e retinha em si, toda a vergonha do mundo mesclada à
uma frustração que o meu choque não entendera o motivo, até então.
Nesse momento surgiu diante do infeliz outro
homem com duas muletas nas mãos, jogou em cima do sujeito, gritando coisas do
tipo: " Vai aprender a andar antes de encher o saco dos outros eu
cachaceiro sem pernas".
Eu vi o homem recolher suas muletas com dificuldade,
se levantar. O dono do bar, rindo às suas costas, continuava:
- Além de perneta e cachaceiro você fede que nem
porco! Vê se aprende a tomar banho, seu otário!"
O homem desapareceu no meio do povo, mas a cena
ficou ali. O calor desaparecera. O engarrafamento não tinha mais importância.
Muito menos o emprego. Aquela deformação da vida fez o mundo tomar outra forma.
Ao meu redor os comentários continuaram durante
algum tempo, alguns indignados, outros a favor do dono do bar, porém durante a
viagem, cada passageiro voltou ao egoísmo de suas vidas, inclusive eu, que
parei de reclamar.Todavia um pensamento, no mínimo sombrio, me envergonha até
hoje e eu não consegui evitar: " Ainda bem que eu tenho pernas para ir pro
trabalho."
( In. CENTELHA MÁGICA )
* ALEXANDER DE SOUZA: poeta, cronista, e como ele mesmo diz, um aprendiz da diferença. É funcionário do Ciep Brizolão 121-Joadélio Codeço, no Marambaia, em São Gonçalo-RJ, Brasil.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
POESIA: VITÓRIA - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
Foto: Niterói- por Vanda Lúcia da Costa Salles
VITÓRIA
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
Apesar de você
a luz no espaço se propaga e expande-se cor e som e
renovada luz
de Vitória efetiva caindo água viva em mim,
em nós,
nos artistas contemporâneos que colaboram e confraternizam
espaços
E quase tudo e todos agem, fazem
com que a Esperança brote e sobreviva
apesar de teus pés e mãos caluniosas, omissas, mas rapináceas
tentar espoliar
a arte
da Arte que atravessa o nosso peito
tão fervorosa e eterniza
nun golpe só,
esse instante... E enleva,
eleva,
com vigor e visgo,
o nosso Sonho cada vez mais longe...
E você,
como é que fica?
Sem figa,
amadurece,
irmão!
A vida é muito mais... Que o teu olho de Hidra!
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
Apesar de você
a luz no espaço se propaga e expande-se cor e som e
renovada luz
de Vitória efetiva caindo água viva em mim,
em nós,
nos artistas contemporâneos que colaboram e confraternizam
espaços
E quase tudo e todos agem, fazem
com que a Esperança brote e sobreviva
apesar de teus pés e mãos caluniosas, omissas, mas rapináceas
tentar espoliar
a arte
da Arte que atravessa o nosso peito
tão fervorosa e eterniza
nun golpe só,
esse instante... E enleva,
eleva,
com vigor e visgo,
o nosso Sonho cada vez mais longe...
E você,
como é que fica?
Sem figa,
amadurece,
irmão!
A vida é muito mais... Que o teu olho de Hidra!
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
POESIA: MAIS DE UM... - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
MAIS DE UM...
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
I
não ouse sentar-se ali
Mais de um já o fizeram
e
essa cadeira vazia
não fede e nem cheira,
apenas,
soluça seu pranto
porque sabe
que quaisquer orlas
são indiferentes
ao brilho do Sol
ou ao clarão da Lua
II
essa cadeira vazia... Em que jaz o testamento e a música
A trouxeram, ninguém sabe quando
ou quem,
porém,
em um entardecer de Abril, quando
derramaste todo o azul de sua retina de peixe
e mais de um saíram à noite
após a leitura
III
da poesia, o abraço recíproco continua
o mar é sempre saudade
se mais de um mergulha
IV
a meu ver,
Tudo/Nada nem sempre é susto
Gerânios embalam os sonhos...
V
...Nesse exato momento, a vitória é uma conquista.
(Alcântara-São Gonçalo,03 de setembro de 2012)
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