sábado, 6 de outubro de 2012

POESIA: NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES

Foto: Barco na Marina da Glória



NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS


                                           Vanda Lúcia da Costa Salles

    I

Se o cérebro produz formas, guarda
a natureza dessa imaginação, fugaz
diferenciação
a maré não joga o caniço nem elabora a memória
que traz
o mistério estético do elevar-se âncora


   II


Os passos não atravessam estradas porque a sombra os alinham
O sol não aquece as margens porque o rio é caudaloso
A  solução não espera o sonho da escolha realizada
A cristalina água reflete a hora de retornar à casa aberta...


III


Nenhum transeunte pensa, o quanto é tarde ao se vê atravessado
A violência tomou conta da tarde, e o trágico na rua
foi um passista silenciar-se

IV


Assoviando no caos do trânsito
uma ambulância corre contra o tempo
Marcas interferem no colorido da imagem
No silêncio das falas, o burburinho das máquinas creditam o humano


V


Uma sunga e uma tanga  atravessam a mesma estrada
Há que se crê no que o olho absorve...

domingo, 30 de setembro de 2012

CRÔNICA: AQUELE OLHAR - ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)






Foto: Iguaba, por Vanda Lúcia da Costa Salles






  AQUELE OLHAR


                            ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)*




      Engraçado como a vida faz nossos valores se distorcerem. Num momento acreditamos em algumas coisas que ela mesma ensinou. No outro, tudo vira de cabeça para baixo e a gente se pega questionando tudo; a conduta de pessoas, a nossa, a própria vida e até mesmo Deus.
     Eu sei que é clichê, mas nunca estamos satisfeitos com nada até a vida nos colocar à prova e é aí que uma parte de nós, absconsa e real, como um bebê esperando para vir ao mundo, se revela. Quem tem o mínimo de coerência, nessas horas, percebe que na maior parte da existência reclama por razões mesquinhas ou por não ter o quê dizer.
     Em algum lugar da minha memória, um fato que tive o desprazer de presenciar exemplifica bem o que eu quero dizer. Foi no início da tarde de um sábado. Eu ia para o trabalho muito P da vida. Calor pra cacete. Minha escala estava errada e o meu chefe não estava nem aí pra isso. Que inveja do pessoal fora do ônibus!  Sentados num bar, tomando cerveja e batendo papo enquanto o otário aqui, pagava seus pecados numa condução lotada e pra jogar logo a pá de cal, no meio de um engarrafamento que faria às provações de Jó parecerem histórias pra boi dormir.
     Fazer o quê, né? Fui resmungando o tempo todo durante um trecho que, hoje penso, não cobria o espaço de meio quilômetro. Mas que se dane!  Naquele momento eu só pensava em reclamar e sentir inveja daquele povo lá fora, porque eu estava dentro de um veículo que parecia me levar direto para o inferno.
     Estranho. Até hoje não sei como os meus reflexos afastaram o pragmatismo mesquinho em meus pensamentos e fixaram minha visão no corpo de um homem jogado ao chão, bem ali, na calçada.
     - Ele caiu! - gritou alguém.
     - Foi atropelado! - responde outra pessoa
     - Ele tá é bêbado. - gritou, em deboche, um grupo de adolescentes no fundo do ônibus.
     Os comentários ao meu redor me deixavam atordoado e o impulso foi o de me levantar, porém eu permaneci observando. Queria ver o rosto do sujeito, que permanecia virado para baixo.
     Quando ele conseguiu virar-se afinal, o que eu vi, ficou gravado em minha mente. O que vi foi ódio. Eu vi impotência. Sua respiração era profunda e retinha em si, toda a vergonha do mundo mesclada à uma frustração que o meu choque não entendera o motivo, até então.
     Nesse momento surgiu diante do infeliz outro homem com duas muletas nas mãos, jogou em cima do sujeito, gritando coisas do tipo: " Vai aprender a andar antes de encher o saco dos outros eu cachaceiro sem pernas".
    Eu vi o homem recolher suas muletas com dificuldade, se levantar. O dono do bar, rindo às suas costas, continuava:
    - Além de perneta e cachaceiro você fede que nem porco!  Vê se aprende a tomar banho, seu otário!"
    O homem desapareceu no meio do povo, mas a cena ficou ali. O calor desaparecera. O engarrafamento não tinha mais importância. Muito menos o emprego. Aquela deformação da vida fez o mundo tomar outra forma.
    Ao meu redor os comentários continuaram durante algum tempo, alguns indignados, outros a favor do dono do bar, porém durante a viagem, cada passageiro voltou ao egoísmo de suas vidas, inclusive eu, que parei de reclamar.Todavia um pensamento, no mínimo sombrio, me envergonha até hoje e eu não consegui evitar: " Ainda bem que eu tenho pernas para ir pro trabalho."


  ( In. CENTELHA MÁGICA )



* ALEXANDER DE SOUZA: poeta, cronista, e como ele mesmo diz, um aprendiz da diferença. É funcionário do Ciep Brizolão 121-Joadélio Codeço, no Marambaia, em São Gonçalo-RJ, Brasil.
     



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

POESIA: VITÓRIA - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)










Foto:  Niterói- por Vanda Lúcia da Costa Salles






VITÓRIA


Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)



Apesar de você
a luz no espaço se propaga e expande-se cor e som e
renovada luz
de Vitória efetiva caindo água viva em mim,
em nós,
nos artistas contemporâneos que colaboram e confraternizam
espaços
E quase tudo e todos agem, fazem
com que a Esperança brote e sobreviva
apesar de teus pés e mãos caluniosas, omissas, mas rapináceas
tentar espoliar
a arte
da Arte que atravessa o nosso peito
tão fervorosa e eterniza
nun golpe só,
esse instante... E enleva,
eleva,
com vigor e visgo,
o nosso Sonho cada vez mais longe...



E você,
como é que fica?


Sem figa,
amadurece,
irmão!


A vida é muito mais... Que o teu olho de Hidra!





segunda-feira, 3 de setembro de 2012

POESIA: MAIS DE UM... - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)











MAIS DE UM...


                     Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)

I

não ouse sentar-se ali
Mais de um já o fizeram
e
essa cadeira vazia
não fede e nem cheira,
apenas,
soluça seu pranto
porque sabe
que quaisquer orlas
são indiferentes
ao brilho do Sol
ou ao clarão da Lua


II


essa cadeira vazia... Em que jaz o testamento e a música
A trouxeram, ninguém sabe quando
ou quem,
porém,
em um entardecer de Abril, quando
derramaste todo o azul de sua retina de peixe
e mais de um saíram à noite
após a leitura


III


da poesia, o abraço recíproco continua
o mar é sempre saudade
se mais de um mergulha


IV

a meu ver,
Tudo/Nada nem sempre é susto
Gerânios embalam os sonhos...


V

...Nesse exato momento, a vitória é uma conquista.





(Alcântara-São Gonçalo,03 de setembro de 2012)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

DIVERSIDADES E LOUCURAS EM OBRAS DE ARTE II - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)

Foto: Pintura de Matisse- Luxo, Calma e Volúpia


                      MATISSE-  A ARTE COMO SAÚDE MENTAL E SOCIAL

                  Sabe-se que aos 21 anos (1890), após sofrer uma cirurgia, o pintor francês Henri Matisse adquire consciência ou "iluminação" de que o seu destino era ser pintor. E com essa certeza, reorienta os seus objetivos de vida.
                  Quando pinta o seu primeiro quadro " Luxo, Calma e Volúpia", o artista ganha a convicção de que Liberdade é abertura da obra e diz " euforia e dilatação" é saúde mental.
                  Assim, sua obra opõe-se às ideologias niilistas que dominaram o Século XX  e descortina-se em luminosidade em louvor a vida.


* (Henri-Émile-Benoît Matisse )nasceu em Le Cateau Cambrésis no dia 31 de dezembro de 1869, e faleceu em 3 de novembro de 1954. Foi criado em Bohain-en-Vermandois, na região francesa de Picardia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

POESIA: NOS OLHOS DE WOROUD SAWALHA - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)






  






NOS OLHOS DE WOROUD SAWALHA



                             Por: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)








uma garça voa
corre corre corre corre
e mira o alvo
o sonho estala forte
enquanto
suas asas flamam ao vento
a mesma luz
que ilumina
o espetáculo do dia
ilumina
a todas as mulheres determinadas a ler
o que mais avança
nos olhos de Woroud Sawalha