Foto: Barco na Marina da Glória
NA SINGULARIDADES DE CURVATURAS
Vanda Lúcia da Costa Salles
I
Se o cérebro produz formas, guarda
a natureza dessa imaginação, fugaz
diferenciação
a maré não joga o caniço nem elabora a memória
que traz
o mistério estético do elevar-se âncora
II
Os passos não atravessam estradas porque a sombra os alinham
O sol não aquece as margens porque o rio é caudaloso
A solução não espera o sonho da escolha realizada
A cristalina água reflete a hora de retornar à casa aberta...
III
Nenhum transeunte pensa, o quanto é tarde ao se vê atravessado
A violência tomou conta da tarde, e o trágico na rua
foi um passista silenciar-se
IV
Assoviando no caos do trânsito
uma ambulância corre contra o tempo
Marcas interferem no colorido da imagem
No silêncio das falas, o burburinho das máquinas creditam o humano
V
Uma sunga e uma tanga atravessam a mesma estrada
Há que se crê no que o olho absorve...
sábado, 6 de outubro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
CRÔNICA: AQUELE OLHAR - ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)
Foto: Iguaba, por Vanda Lúcia da Costa Salles
AQUELE OLHAR
ALEXANDER DE SOUZA (BRASIL)*
Engraçado como a vida faz nossos valores se
distorcerem. Num momento acreditamos em algumas coisas que ela mesma ensinou.
No outro, tudo vira de cabeça para baixo e a gente se pega questionando tudo; a
conduta de pessoas, a nossa, a própria vida e até mesmo Deus.
Eu sei que é clichê, mas nunca estamos
satisfeitos com nada até a vida nos colocar à prova e é aí que uma parte de
nós, absconsa e real, como um bebê esperando para vir ao mundo, se revela. Quem
tem o mínimo de coerência, nessas horas, percebe que na maior parte da
existência reclama por razões mesquinhas ou por não ter o quê dizer.
Em algum lugar da minha memória, um fato que
tive o desprazer de presenciar exemplifica bem o que eu quero dizer. Foi no
início da tarde de um sábado. Eu ia para o trabalho muito P da vida. Calor pra
cacete. Minha escala estava errada e o meu chefe não estava nem aí pra isso.
Que inveja do pessoal fora do ônibus! Sentados num bar, tomando cerveja e
batendo papo enquanto o otário aqui, pagava seus pecados numa condução lotada e
pra jogar logo a pá de cal, no meio de um engarrafamento que faria às provações
de Jó parecerem histórias pra boi dormir.
Fazer o quê, né? Fui resmungando o tempo todo
durante um trecho que, hoje penso, não cobria o espaço de meio quilômetro. Mas
que se dane! Naquele momento eu só pensava em reclamar e sentir inveja
daquele povo lá fora, porque eu estava dentro de um veículo que parecia me
levar direto para o inferno.
Estranho. Até hoje não sei como os meus
reflexos afastaram o pragmatismo mesquinho em meus pensamentos e fixaram minha
visão no corpo de um homem jogado ao chão, bem ali, na calçada.
- Ele caiu! - gritou alguém.
- Foi atropelado! - responde outra pessoa
- Ele tá é bêbado. - gritou, em deboche, um
grupo de adolescentes no fundo do ônibus.
Os comentários ao meu redor me deixavam
atordoado e o impulso foi o de me levantar, porém eu permaneci observando.
Queria ver o rosto do sujeito, que permanecia virado para baixo.
Quando ele conseguiu virar-se afinal, o que eu
vi, ficou gravado em minha mente. O que vi foi ódio. Eu vi impotência. Sua
respiração era profunda e retinha em si, toda a vergonha do mundo mesclada à
uma frustração que o meu choque não entendera o motivo, até então.
Nesse momento surgiu diante do infeliz outro
homem com duas muletas nas mãos, jogou em cima do sujeito, gritando coisas do
tipo: " Vai aprender a andar antes de encher o saco dos outros eu
cachaceiro sem pernas".
Eu vi o homem recolher suas muletas com dificuldade,
se levantar. O dono do bar, rindo às suas costas, continuava:
- Além de perneta e cachaceiro você fede que nem
porco! Vê se aprende a tomar banho, seu otário!"
O homem desapareceu no meio do povo, mas a cena
ficou ali. O calor desaparecera. O engarrafamento não tinha mais importância.
Muito menos o emprego. Aquela deformação da vida fez o mundo tomar outra forma.
Ao meu redor os comentários continuaram durante
algum tempo, alguns indignados, outros a favor do dono do bar, porém durante a
viagem, cada passageiro voltou ao egoísmo de suas vidas, inclusive eu, que
parei de reclamar.Todavia um pensamento, no mínimo sombrio, me envergonha até
hoje e eu não consegui evitar: " Ainda bem que eu tenho pernas para ir pro
trabalho."
( In. CENTELHA MÁGICA )
* ALEXANDER DE SOUZA: poeta, cronista, e como ele mesmo diz, um aprendiz da diferença. É funcionário do Ciep Brizolão 121-Joadélio Codeço, no Marambaia, em São Gonçalo-RJ, Brasil.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
POESIA: VITÓRIA - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
Foto: Niterói- por Vanda Lúcia da Costa Salles
VITÓRIA
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
Apesar de você
a luz no espaço se propaga e expande-se cor e som e
renovada luz
de Vitória efetiva caindo água viva em mim,
em nós,
nos artistas contemporâneos que colaboram e confraternizam
espaços
E quase tudo e todos agem, fazem
com que a Esperança brote e sobreviva
apesar de teus pés e mãos caluniosas, omissas, mas rapináceas
tentar espoliar
a arte
da Arte que atravessa o nosso peito
tão fervorosa e eterniza
nun golpe só,
esse instante... E enleva,
eleva,
com vigor e visgo,
o nosso Sonho cada vez mais longe...
E você,
como é que fica?
Sem figa,
amadurece,
irmão!
A vida é muito mais... Que o teu olho de Hidra!
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
Apesar de você
a luz no espaço se propaga e expande-se cor e som e
renovada luz
de Vitória efetiva caindo água viva em mim,
em nós,
nos artistas contemporâneos que colaboram e confraternizam
espaços
E quase tudo e todos agem, fazem
com que a Esperança brote e sobreviva
apesar de teus pés e mãos caluniosas, omissas, mas rapináceas
tentar espoliar
a arte
da Arte que atravessa o nosso peito
tão fervorosa e eterniza
nun golpe só,
esse instante... E enleva,
eleva,
com vigor e visgo,
o nosso Sonho cada vez mais longe...
E você,
como é que fica?
Sem figa,
amadurece,
irmão!
A vida é muito mais... Que o teu olho de Hidra!
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
POESIA: MAIS DE UM... - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
MAIS DE UM...
Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
I
não ouse sentar-se ali
Mais de um já o fizeram
e
essa cadeira vazia
não fede e nem cheira,
apenas,
soluça seu pranto
porque sabe
que quaisquer orlas
são indiferentes
ao brilho do Sol
ou ao clarão da Lua
II
essa cadeira vazia... Em que jaz o testamento e a música
A trouxeram, ninguém sabe quando
ou quem,
porém,
em um entardecer de Abril, quando
derramaste todo o azul de sua retina de peixe
e mais de um saíram à noite
após a leitura
III
da poesia, o abraço recíproco continua
o mar é sempre saudade
se mais de um mergulha
IV
a meu ver,
Tudo/Nada nem sempre é susto
Gerânios embalam os sonhos...
V
...Nesse exato momento, a vitória é uma conquista.
(Alcântara-São Gonçalo,03 de setembro de 2012)
terça-feira, 21 de agosto de 2012
DIVERSIDADES E LOUCURAS EM OBRAS DE ARTE II - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
Foto: Pintura de Matisse- Luxo, Calma e Volúpia
MATISSE- A ARTE COMO SAÚDE MENTAL E SOCIAL
Sabe-se que aos 21 anos (1890), após sofrer uma cirurgia, o pintor francês Henri Matisse adquire consciência ou "iluminação" de que o seu destino era ser pintor. E com essa certeza, reorienta os seus objetivos de vida.
Quando pinta o seu primeiro quadro " Luxo, Calma e Volúpia", o artista ganha a convicção de que Liberdade é abertura da obra e diz " euforia e dilatação" é saúde mental.
Assim, sua obra opõe-se às ideologias niilistas que dominaram o Século XX e descortina-se em luminosidade em louvor a vida.
* (Henri-Émile-Benoît Matisse )nasceu em Le Cateau Cambrésis no dia 31 de dezembro de 1869, e faleceu em 3 de novembro de 1954. Foi criado em Bohain-en-Vermandois, na região francesa de Picardia.
MATISSE- A ARTE COMO SAÚDE MENTAL E SOCIAL
Sabe-se que aos 21 anos (1890), após sofrer uma cirurgia, o pintor francês Henri Matisse adquire consciência ou "iluminação" de que o seu destino era ser pintor. E com essa certeza, reorienta os seus objetivos de vida.
Quando pinta o seu primeiro quadro " Luxo, Calma e Volúpia", o artista ganha a convicção de que Liberdade é abertura da obra e diz " euforia e dilatação" é saúde mental.
Assim, sua obra opõe-se às ideologias niilistas que dominaram o Século XX e descortina-se em luminosidade em louvor a vida.
* (Henri-Émile-Benoît Matisse )nasceu em Le Cateau Cambrésis no dia 31 de dezembro de 1869, e faleceu em 3 de novembro de 1954. Foi criado em Bohain-en-Vermandois, na região francesa de Picardia.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
POESIA: NOS OLHOS DE WOROUD SAWALHA - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)
NOS OLHOS DE WOROUD SAWALHA
Por: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)
uma garça voa
corre corre corre corre
e mira o alvo
o sonho estala forte
enquanto
suas asas flamam ao vento
a mesma luz
que ilumina
o espetáculo do dia
ilumina
a todas as mulheres determinadas a ler
o que mais avança
nos olhos de Woroud Sawalha
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
A VIDA E O TEMPO: UMA MARCANTE ENTREVISTA À PALABRASINCENDIADAS
Foto: A escritora Vanda Lúcia da Costa Salles
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